Blacksilver (parte 3)

As coisas nem sempre saí­am como o planejado. Quem poderia adivinhar que um grupo de aventureiros humanos poderia ter ouvido falar daquela remota tumba e se antecipado í  incursão dos futuros heróis élficos? Prever o futuro nunca foi uma arte exata, Blacksilver sempre lembrava seu mestre. O súbito contratempo não teria causado problemas caso a ganância dos violadores de tumba fosse um pouco menor que o valor que davam í s vidas. Afinal de contas apenas as mãos de um paladino de Corellon poderia abrir o selo que guardava a relí­quia sagrada, e nenhum da raça bela integrava o bando de larápios que sabe-se lá como sobreviveu ao difí­cil caminho entre as montanhas.

Não, a relí­quia estava a salvo, o ghaele respirava aliviado. O que o preocupava eram os demônios invocados inadvertidamente pelo mago do grupo, um homem de aparência arrogante e petulante. Certamente confiou em suas runas de proteção, crente de que elas seriam capazes de manter aqueles seres das profundezas sob seu controle e usá-los como isca para as armadilhas que protegiam as câmaras internas. No começo era apenas um, mas demônios tem o péssimo hábito de convidar seus horrendos irmãos para todas as suas brincadeiras. Blacksilver já contava mais de vinte, e outros chegavam a cada momento.

Quisera ele ter chegado antes do imbecil ter tentado sua magia, pois a anularia sem pestanejar. Mas o combate já se encontrava selvagem quando os encontrou. Ainda não conseguira distinguir exatamente quantos eram os membros do grupo de aventureiros, mas já havia contado dois de seus guerreiros caí­dos e o que parecia ser os restos de um sacerdote de Oghma. O mago e um anão se defendiam como podiam, mas a revoada de asas, garras e presas flamejantes não deixavam claro se havia mais algum humano ainda vivo.

As flechas já se encontravam prontas em seu arco, mas ainda não havia se decidido do melhor caminho a seguir. Arriscaria se revelar para ajudar os humanos e afastar a ameaça dos demônios do caminho dos elfos ou esperaria pelo resultado do combate torcendo por um triunfo dos aventureiros? A terceira alternativa lhe parecia mais acertada, apesar de lhe doer um pouco a alma. Os demônios, em maior número, acabariam por vencer a batalha, e partiriam em busca de mais sangue e destruição em alguma das vilas no sopé das montanhas. Lá com certeza seriam banidos de volta para os infernos, pois fortes eram os shamans de Uthgard da tribo do tigre rubro. Por mais que lhe parecesse errado sacrificar a vida dos humanos em benefí­cio de sua missão, estes apenas estavam colhendo o que plantaram. Pela maneira descuidada com que lidaram com a magia demoní­aca, mais cedo ou mais tarde encontrariam seu destino final. E acima de tudo, como um eladrin, deveria permanecer nas sombras, sem se revelar ou ser visto, ajudando a causa dos Seldarine com discrição e frieza. Atos desbragados de virtude era mais apropriado dos Archons.

Com um sorriso matreiro, lembrou-se do último Hound Archon que encontrou no plano astral, e como suportou os latidos e ganidos do companheiros celestial enquanto emboscavam um comboio de traficantes de escravos interdimensionais. Khundris seguia fielmente o método Archon de ser, o bem acima de tudo e de todos, sem olhar a quem. Por alguns momentos invejou a nobreza do colega, e decidiu homenageá-lo disparando algumas flechas em demônios fora do alcance de visão dos humanos.

Abateu uns quatro antes de perceber, sob um sarcófago parcialmente destruí­do, a figura de umas pequena humana. A menina não deveria ter visto nem mesmo quinze primaveras, mas já vestia a indumentária padrão de qualquer ladrão das terras selvagens. Porque se juntara í queles companheiros de aventura não podia imaginar, mas certamente tinha mais responsabilidades que sua tenra idade deveria lhe permitir. Se era ela a ladina responsável pelas armadilhas desarmadas que o ghaele havia encontrado na entrada da tumba, suas habilidades eram promissoras, mas o olhar de medo e pavor em seus olhos denotavam sua verdadeira natureza: era ainda uma criança, e a promessa tão próxima da morte certa era demais para ela. Lágrimas escorriam por seu rosto, e suas delicadas mãos cobertas por uma fina luva de couro tremiam mais do que as explosões das bolas de fogo que eclodiam por toda parte.

Blacksilver soltou mais uma flecha mas de longe ela errou o alvo pretendido. Por mais que tentasse, não conseguia mais mirar em nenhum dos demônios. Um vazio em sua alma não permitia que se concentrasse em nada além do rosto da jovem garota e suas lágrimas prateadas que desciam incontidas por sua bela face. A pureza e a inocência que sentia em sua alma era algo que nunca havia experimentado antes. Por mais que vivesse entre celestiais e deuses, viajasse por planos e dimensões fantásticas e habitadas por toda sorte de criaturas e pessoas das mais diferentes formas e personalidades, pela primeira vez alguém o tocava seu coração daquela forma.

A próxima coisa que viu foi sua mão sacando a espada, seguido de um longo salto para o meio da batalha. Ceifando demônios com cada golpe, rapidamente chegou ao lado da criança. Sua pele brilhava como nunca antes havia brilhado, e seus olhos perolados queimavam com uma chama ardente que repelia os seres das profundezas para o inferno de onde haviam saí­do. Quando deu por si, a batalha havia terminado, e os corpos fumegantes dos demônios se dissipavam aos poucos em núvens de enxofre e salitre. Do anão e do mago não havia sinal, provavelmente já retalhados e digeridos naquele momento. Poque havia feito aquilo? Porque havia arriscado sua missão, seu segredo? Porque havia desobedecido os desí­gnios de Corellon?

Olhando para baixo, abraçada í  sua perna, a pequena criança chorava compulsivamente, e parecia fazer uma prece em meio aos soluços agradecendo pelo envio de seu anjo da guarda. Quando ela juntou forças e conseguiu olhar para cima, seus olhares se cruzaram e Blacksilver entendeu porque havia quebrado os votos feitos a Corellon. Entendeu o fervor de Khundris ao defender quem quer que fosse de qualquer agente do mal. Entendeu o que era o vazio em seu coração. Nunca poderia ele continuar existindo se a vida que brilhava naquele olhar tão inocente e puro fosse apagada desst mundo.

Pegando a criança no colo, recitou uma pequena prece e alçou vôo, deixando rapidamente a tumba para trás. A jovem, exausta e em estado de choque, havia adormecido em seus braços. Sem saber para onde ir, para onde levá-la, Blacksilver queria apenas colocá-la o mais longe possí­vel daquele terrí­vel lugar onde sua vida por pouco não havia sido extinta. Voando pela noite, sob as estrelas, o ghaele cantava doces canções élficas para embalar os sonhos daquela que se aninhava em seu colo, e afastar a imagem dos horrores que a haviam ameaçado. Mais abaixo, cinco elfos vestidos em armaduras prateadas subiam as montanhas em direção a tumba de Ahran Artest, lendária por suas armadilhas mortí­feras. Blacksilver não os viu, não se lembrou de que não havia desarmado nem metade dos perigos que os aguardava. Pensava apenas naquilo que carregava no colo em direção ao horizonte que já se pintava de cinza, anunciando a manhã que estava por vir.

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