Blacksilver (parte 1)

Muito ainda faltava para sua expiação. Ainda sentia na pele a dor de ter seus poderes arrancados enquanto cortava as barreiras entre Arvandor e Faerûn. Porém não se arrependia da escolha tomada há alguns meses – que antes teriam passado em um piscar de olhos – que se arrastaram por uma eternidade. Aceitou a decisão de Corellon com o semblante impassível, o queixo erguido e decidido a suportar todas as provações a ele impostas.

Desde que acordou em Lurkwood, privado de seus poderes e conhecimento, passou por muitas delas. A única coisa que não lhe fora tirada havia sido sua identidade e missão. Sabia quem era, quem fora e o que viria a ser caso tivesse sucesso em provar aos Seldarine que estava ciente do peso de sua escolha. A cada provação reconquistava lentamente uma pequena parcela de seu poder e de seu conhecimento. Intrínseco a sua natureza, cada ato de bondade o aproximava da redenção final, mas o caminho era longo. Defender uma pequena vila nas bordas da High Forest de um ataque de goblins, e ajudar na caçada aos bugbears sobreviventes do ataque dos Phaerimm a Evereska foram apenas os primeiros passos neste caminho. Mas sabia que apenas conseguiria realmente progredir quando enfrentasse aqueles para quem tinha reservado o mais negro canto de seu coração.

As luzes da pequena cidade nas montanhas ao norte de Cormyr já se acendiam, ao mesmo tempo que ao oeste o sol sumia, bloqueado por um grande pico. A noite plena ainda não havia chegado naquela região montanhosa, mas Blacksilver parou ao lado de uma pequena árvore e se ajoelhou. Retirou de dentro de sua capa uma flecha negra quebrada ao meio. De seu olho direito brotou uma única lágrima prateada, que escorreu por sua face alva e se derramou sobre a seta enquanto murmurava uma breve elegia. Levantando-se, seguiu seu caminho em direção à Black Hollow enquanto a primeira estrela surgia no leste.

O vilarejo era realmente tudo que haviam lhe dito em Arabel. Tendas e casebres amontoados uns em cima dos outros, marginais se esgueirando pelas longas sombras que se formavam pelas mal-iluminadas ruelas e becos. Por mais que a guarda do reino tentasse manter a lei e a ordem, seria praticamente impossível extirpar a maldade de um lugar onde a escória da região procurava santuário. No passado Blacksilver teria muito o que fazer em Black Hollow, mas agora sua missão precisava de dedicação absoluta.

Procurando atentamente por um lugar onde conseguir informações, entrou na Taverna do Dragão das Profundezas e sentou-se em um canto, atento a tudo o que se passava ao seu redor. Em High Horn, uma das mais importantes guarnições de Cormyr a oeste de onde estava, soube de um grupo de aventureiros que havia rechaçado um ataque dos mais odiados, o mesmo grupo havia ajudado a liberar a fortaleza que emprestava o nome à vila de Black Hollow.

Logo sua paciência rendeu frutos, e um mago baixo e magrelo comentou com um colega sua última aquisição, e como havia enganado um estúpido paladino a lhe passar por uma fração do que realmente valia um exótico anel mágico. Seu sangue ferveu ao escutar tamanho desrespeito para com um servidor dos deuses, mas manteve sua compostura e continuou a escutar a conversa. Quando a melhor oportunidade se apresentou, interpelou o mago sobre os detalhes do ex-dono do anel, e com um punhado de peças de ouro conseguiu o nome do guerreiro de Lathander e uma descrição dele e dos dois que o acompanhavam, um calishite, ou talvez bedine, de aparência bruta e um outro homem de origem desconhecida que andava com dois estranhos cães. Mais algumas peças de prata lhe compraram uma rápida olhadela no anel, e não fosse por seus votos feitos no dia em que fora expulso de Arvandor, teria sorrido. Um sorriso que um caçador daria ao encontrar o rastro de sua presa. Agradecendo, voltou para sua mesa, com o símbolo da Mão de Ébano gravado em sua mente.

O caminho a frente estava claro. A única coisa pela qual os assassinos da Mão de Ébano eram mais conhecidos do que suas habilidades era a certeza de que a morte de um de seus membros nunca passaria em branco. Não importa aonde Walric, Gurahl e Mistral estivessem, os malditos os achariam. E quando isso acontecesse, Blacksilver estaria ao lado deles para mais uma vez banhar sua lâmina no sangue negro dos drow.

Cormyr, Arabel, Faerûn e outros termos são propriedade da Wizards of the Coast, e são usados aqui sem fins lucrativos, para fins de ficção feita por fã.

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